Veridiana Dirienzo

Educadora Social e Psicanalista
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Por Veridiana Dirienzo

Nas últimas semanas, com a abertura gradual de setores não essenciais do comércio, dos shoppings, lojas de rua lotaram. Pessoas em fila procuravam itens que poderíamos dizer que passam longe do que chamamos de essencial.

Curiosamente isso acontece na semana que antecede o dia dos namorados. É impossível não pensar o papel da mídia na produção do que é essencial para que um dia "bom" dos namorados ocorra: compras, trocas de presentes, um cenário montado que envolve, acima de tudo, concentração de riqueza e poder, muito longe de quase a totalidade da população brasileira.

Afinal, o que significa centros de compra lotados? Com salários cada vez mais parcos, pequenos objetos iludem com suposta ideia de que para ser pertencente ao mundo do qual não fazemos parte é preciso comprar, mesmo que isso seja em uma aglomeração perigosa em um centro de compras. 

A pandemia no Brasil evidenciou algo que faz já algum tempo dava indícios, ainda que custe a morte: a ideia de pertencer a algo comprando me faz alguém, e a forma como eu posso mostrar para o outro que gosto dele também, a relação de troca por meio do consumo, distanciamo-nos cada vez mais do que seria o ser onde se é, voltando à data comercial que une o dia dos namorados a também possível abertura comercial.  

Ser para o outro deixa de ter o valor de compartilhar sentimentos, histórias, sensações. Essa trajetória singular conjunta é o que nos constitui como alguém único, possuidor de algo que não se compra ou vende porque se carrega e, a medida que nos encontramos com o outro, traçamos histórias de valor inestimável.

É lamentável também que, junto com essa procura por comprar para ser - o que é da ordem do essencial -, trabalhadores e trabalhadoras estão expondo suas vidas para que aquilo que é essencial continue a acontecer: a manutenção da vida, e ainda continuar lutando por equipamentos de proteção individual (EPI), testagem e valorização monetária de seu trabalho, como se o mais importante ou o menos importante adquirisse valores inversos.

Perguntas importantes devem ser feitas: qual a valor, o meu valor no mundo? Qual a relação de troca das minhas relações? Os produtos que adquirimos têm todo esse valor de mudança na nossa vida? Quais são eles?

Os profissionais da linha de frente dos serviços essenciais têm nos mostrado essencialmente isto. Com eles estamos tranquilos sobre a nossa condição de: segurança, saúde, alimentação, locomoção, serviços funerários. Eu não conseguiria listar aqui todos os trabalhadores que estão todos os dias nas ruas para que possamos nos proteger.

O que ao final virou essencial quando estamos em um cenário onde tudo mudou? Negar essa realidade é voltar também para o estado morto, ou seja, quanto mais se insiste de que nada está acontecendo, nós tendemos à morte, não à vida, ainda que pareça que sair e encontrar pessoas seja um sinal de vida.

A bandeira do isolamento é uma luta do SIFUSPESP. A sociedade mais protegida é uma sociedade com menos mortes, que caminha em outras direções. É uma sociedade que protege o trabalhador que está lá defendendo a manutenção do que é essencial.

Cabe a todos nós esta reflexão nesse momento, de reavaliarmos o que realmente importa, seja nas relações, no amor, no cotidiano, na reinvenção das formas de pertencermos ao mundo de forma real, não mercantilizada. Todo trabalhador carrega uma riqueza que loja nenhuma pode comprar, e o Sindicato defende justamente essa riqueza.

Veridiana Dirienzo é educadora social e psicanalista