A demissão de Wiltinho Poeta, contrariando recomendação da Procuradoria do Estado, expõe método autoritário de Tarcísio contra seus críticos_

O governo Tarcísio de Freitas demitiu o policial penal Wilton Borges Viana, o Wiltinho Poeta, em 28 de maio, numa decisão que rasgou a recomendação da Procuradoria do Estado. O órgão jurídico sugeriu suspensão de 90 dias para o agente, que trabalhava em Suzano e mantém o blog Amigos do Poeta Penal, onde publicava poemas críticos ao sistema prisional. 

O governo Tarcísio, por meio do Diretor Geral da Polícia Penal, preferiu ignorar o parecer técnico e aplicar a punição máxima, num gesto que ecoa os métodos da ditadura militar de perseguir quem ousar criticar o poder. A mensagem é clara: liberdade de expressão, no governo dele, só vale para aliados que atacam a oposição. Para um poeta que escreve sobre a realidade das prisões, o preço é a demissão sumária.

O Processo Administrativo Disciplinar nº 006.00019871/2026-85, publicado no Diário Oficial, deu o verniz de legalidade, mas a arbitrariedade salta aos olhos.  A administração enxergou nos versos de Wiltinho um festival de infrações. A primeira acusação foi a publicação de conteúdo ofensivo contra autoridades. Em vez de elogiar a gestão, ele usava a poesia para apontar problemas, o que foi interpretado como desrespeito. Em segundo lugar, a conduta teria desprestigiado a instituição. Ao expor fragilidades do sistema prisional, Wiltinho acabou colocando a própria casa em xeque, algo que a administração não perdoa. A acusação final foi a violação ética. O Código de Ética da Administração Pública Estadual, instituído pelo Decreto nº 69.328/2025, exige que o servidor mantenha postura compatível com o cargo. Publicar críticas azedas em blog público, segundo a acusação, fere esse dever.  

Quando o caso chegou à Procuradoria, cada acusação foi investigada à luz da discricionariedade administrativa. A administração tem liberdade para escolher a punição, mas precisa justificar. E aí vieram os argumentos de razoabilidade e suficiência. A Procuradoria entendeu que as infrações eram reais, mas não a ponto de exigir a demissão. O parecer destacou as circunstâncias pessoais do servidor. Wilton não era um criminoso, era um funcionário com tempo de casa, sem antecedentes disciplinares graves. Seus poemas não incitavam violência nem revelavam segredos de Estado. Detalhavam sim rotinas, mas num nível que qualquer ex-detento ou visita poderia saber. 

A Procuradoria lembrou que a pena deve ser proporcional ao dano. E, nesse caso, uma suspensão de 90 dias já seria suficiente para corrigir o comportamento e servir de exemplo. Foi citado o Decreto 69.328/2025 que trata dos deveres éticos de respeito à instituição e decoro. Mas a Procuradoria ponderou que a demissão é uma pena extrema, reservada para casos de desvio grave de conduta ou reincidência. Aqui, não havia reincidência e os desvios eram mais de forma do que de fundo. O parecer foi de suspensão de 90 dias, com perda de vencimentos e registro funcional. 

O Governo ignorou a recomendação e, com isso, deixou comprovada a perseguição política contra os servidores que ousam criticar sua gestão, que promoveu o sucateamento sistemático do sistema prisional e a desvalorização dos policiais penais. 

O Sindicato da Polícia Penal de São Paulo (Sinppenal) está mobilizado jurídica e politicamente contra a arbitrariedade do governo. A entidade vai recorrer à Justiça contra a demissão para reverter a perseguição política. Vale lembrar que Wiltinho Poeta, como é conhecido o policial, não é a única vítima dos métodos ditatoriais de Tarcísio. O presidente do Sinppenal acumula dez processos administrativos por exercer sua função sindical e denunciar as ilegalidades do sistema prisional.


Wiltinho não cometeu crime, não agrediu ninguém, não violou sigilo. Seu pecado foi fazer versos. E num estado que se diz democrático, Tarcísio mostra que prefere calar a caneta a ouvir a crítica.