Falta de apoio, descontentamento, tristeza, enfim, os motivos só aumentam quando se fala em doenças mentais, que atingem toda a sociedade, provocando depressão, ansiedade e um quadro desesperador, que pode desencadear vícios, como o alcoolismo, e, pior, levar ao suicídio.
Uma categoria cujo sofrimento aumenta a cada ano com resultados drásticos é a dos policiais penais, cuja profissão é considerada a mais perigosa da segurança pública, devido ao estresse, pressão psicológica e ameaças dentro e fora do expediente.
Um estudo do Instituto de psicologia da USP, realizado em 2010, dá conta que na época a expectativa de vida dos então agentes penitenciários era de 45 anos, 27 anos menos do que a estimada para o restante da população, entre as causas apresentadas pelo Dr. Arlindo da Silva Lourenço, autor da pesquisa, eram as doenças provocadas pelo estresse.
Só neste ano, dois policiais penais já tiraram a própria vida, sendo que um dos casos chamou mais a atenção pelo fato do servidor ter feito um apelo emocionado ao governador Tarcísio em suas redes sociais, clamando por ajuda, e sendo terrivelmente ignorado.
O policial Luiz Henrique Ribeiro, com 23 anos na Polícia Penal, descreveu seu quadro de depressão, a necessidade de afastamento do trabalho, e o fato de “ninguém entender o que ele estava passando”, tomando remédios que não faziam efeito e passando noites inteiras em claro. Sua esperança em ser ouvido pelo governador foi em vão. O silêncio foi a resposta e em menos de três meses, em 9 de fevereiro de 2026, ele tirou a própria vida, deixando família e três filhos, sendo um de apenas 7 anos.
Apesar da dramaticidade deste e de tantos outros casos, o Governo do Estado apenas demonstra o mesmo descaso com que trata questões salariais, déficit funcional e infraestrutura medíocre. “Nossos companheiros estão morrendo por causas que poderiam ser evitadas. Quando um policial penal adoece, não é só a sua família que sofre, todo o sistema padece. A sociedade perde um importante aliado na segurança pública”, afirma, categórico, o presidente do Sindicato, Fábio Jabá.
O SINPPENAL, aliás, alerta para essa importante questão há anos. Em 2023, apresentou uma pesquisa em que apontou um crescimento de 66% nos casos de suicídios entre a categoria, comparando com o mesmo período do ano anterior.
Em 2025, o Boletim do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES) contabilizou 112 mortes autoprovocadas de policiais penais ativos entre 2020 e 2024 em todo o Brasil, sendo 30 casos só em São Paulo. Na comparação entre 2023 e 2024, todas as demais instituições de segurança pública registraram queda no número de suicídios, com exceção da Polícia Penal que teve aumento. O SINPPENAL contabilizou pelo menos cinco casos em 2025.
Afastamentos por doenças mentais
Os casos de afastamentos por doenças mentais, que antecedem a este final trágico e que deveriam ser mais bem avaliados, também são alarmantes, representando cerca de 10% do total do efetivo.
“Metade desses afastamentos se deve a motivos relacionados à saúde mental. Os policiais penais sofrem na pele o sucateamento com o sistema prisional e a desvalorização profissional. Eles são o elo entre a população carcerária e o Estado, vivem em constante tensão, trabalhando com defasagem de servidores e atuando na profissão mais perigosa dentre as carreiras de segurança pública. É urgente implementar medidas eficazes para cuidar da saúde mental desses servidores”, afirma Jabá.
A relação entre sobrecarga de trabalho e sofrimento psíquico é direta e cria um círculo vicioso. Operando com um déficit de pessoal de mais de 38%, os trabalhadores da ativa são cada vez mais sobrecarregados, jornadas de trabalho estendidas, aumento da tensão nas carceragens, aliado ao assédio institucionalizado e ao descaso do estado aumentam a cada dia o número de afastamentos, o que sobrecarrega ainda mais aqueles que estão trabalhando. “Quando falamos que o governo está nos matando não é figura de linguagem” completa Jabá.
Depressão atinge um em cada 10 policiais penais
Pesquisa feita com 22,7 mil profissionais da área, entre 2022 e 2024, apontou que 10,7% dos policiais penais brasileiros tiveram diagnósticos de depressão. Os dados relacionados à saúde mental são da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, e mostram, por exemplo, que 20,6% afirmaram ter transtorno de ansiedade, além de haver 4,2% com relatos de transtorno de pânico.
Matéria da Agência Brasil, de 13 de dezembro de 2025, sobre o assunto, salientou que, de acordo com o governo federal, os mais de 100 mil servidores penitenciários brasileiros desempenham uma função estratégica para a segurança pública, embora muitas vezes invisibilizada.
A pesquisa também aponta que a maioria (50,7%) entende que a sociedade poucas vezes reconhece o valor do trabalho, enquanto 33% “nunca” se sentem reconhecidos.
Infelizmente, para os policiais penais do Estado de São Paulo, o governador se encontra entre as pessoas que não reconhece o trabalho desses profissionais, aprofundando a crise que atinge e enfraquece toda a Segurança Pública.