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Em menos de um mês, o sistema prisional paulista registrou a segunda morte suspeita por meningite. O detento Everton da Silva Lima, 37 anos, preso em regime semiaberto no Complexo Penal de Mirandópolis, morreu nesta segunda-feira (4/5) por suspeita de meningite tuberculosa na Santa Casa de Araçatuba após dias internado na UTI. Lima cumpria pena na Penitenciária Nestor Canoa, unidade com capacidade para 1.244 pessoas que abriga 2.027 detentos, segundo dados da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP). No início de abril, as visitas ao CDP de São Vicente foram suspensas em decorrência da morte de um detento.  

Mas enquanto a morte de um preso gera suspensão de visitas, a morte de policiais penais segue invisível para toda a sociedade e para o governo. Não podemos deixar de lembrar que, durante a pandemia de Covid-19, São Paulo registrou a maior proporção de mortes de agentes penitenciários no país. Segundo levantamento do Sinppenal, 125 policiais penais morreram vítimas do vírus no estado. Morreram mais servidores que presos. Ou seja, o risco de contaminação e morte é ainda maior para quem trabalha no sistema.

Agora, com a meningite, o cenário de risco volta a preocupar. Policiais penais lidam diariamente com superlotação nas unidades prisionais do estado e trabalham em condições precárias. No CDP de São Vicente, que registrou o primeiro caso de morte suspeita em início de abril, a realidade é igualmente brutal: 1.452 presos para 822 vagas, com apenas 120 agentes divididos em quatro turnos que esgotam qualquer ser humano. Nessa situação, gotículas de tosse viram ameaça invisível. 

Esses profissionais respiram o mesmo ar contaminado que mata detentos, mas ninguém fala sobre o risco que enfrentam. 

Esse cenário é agravado pelo desmonte deliberado da assistência médica no sistema prisional. Em abril de 2026, o Portal da Transparência expõe um deficit de 69% das vagas de saúde vazias nas prisões, apenas 803 de 2.626 preenchidas. Como se não bastasse, o governador Tarcísio de Freitas extinguiu 308 cargos este ano, conforme publicado no Diário Oficial: 108 dentistas, 145 enfermeiros, 53 técnicos de enfermagem e 2 de laboratório. Não é falta de recursos. É falta de vontade política. E essa negligência não escolhe vítimas por uniforme. Sem profissionais de saúde para o atendimento, as doenças contagiosas demoram para ser detectadas e se espalham como rastilho de pólvora. 

Diante desse cenário preocupante, o Sinppenal encaminhou ofício ao governo com demandas urgentes e não negociáveis: máscaras cirúrgicas e álcool gel 70% em todas as unidades, aplicação de medicação preventiva nas unidades atingidas, conforme protocolo do Ministério da Saúde, vacinação meningocócica ACWY para servidores e presos, barreiras sanitárias, plano de contingência articulado com a Secretaria da Saúde e quimioprofilaxia imediata para os expostos. Essas não são reivindicações corporativistas. São medidas elementares de saúde pública que qualquer governo minimamente responsável deve implementar.

O Sinppenal alerta com urgência: é hora de agir antes que um surto se instale e vitime também os profissionais que atuam nos presídios. Porque a história já mostrou que quando a negligência toma conta, quem paga são os servidores.

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