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Em menos de um mês, o sistema prisional paulista enfrenta um cenário que deveria despertar atenção máxima da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), mas que recebe como única resposta o silêncio das autoridades. Três casos de meningite em unidades diferentes, dois deles já fatais. Desde sábado, um preso da P2 de Álvaro Carvalho foi internado e entubado no HC de Marília com meningite bacteriana e suspeita de tuberculose. O Sindicato dos Policiais Penais de São Paulo (Sinppenal) segue em alerta porque sabe o que ninguém quer reconhecer: presídios superlotados são incubadores de doenças, e quem trabalha ali respira o mesmo ar que mata e está sujeito ao mesmo risco que os sentenciados.

Os números das unidades atingidas explicam o alerta do sindicato. A P2 de Álvaro Carvalho aloja 1.580 presos numa capacidade de 821 vagas, superlotação de 92%. O CDP de São Vicente, onde surgiu o primeiro caso, abriga 1.452 numa estrutura para 822, 77% acima da capacidade. A Penitenciária Nestor Canoa, onde um detento morreu suspeita de meningite tuberculosa no início deste mês, guarda 2.027 detentos quando deveria ter apenas 1.244, 69% de superlotação.

O primeiro caso, no início de abril, matou um preso no CDP de São Vicente. O segundo, há poucos dias, levou Everton da Silva Lima, 37 anos, ao óbito na Santa Casa de Araçatuba após dias na UTI, vítima de suspeita de meningite tuberculosa. Agora, policiais penais procuraram o Sinppenal para notificar um caso de meningite bacteriana na P2 de Álvaro Carvalho. Um preso continua entubado no HC de Marília, enquanto a diretora de saúde da unidade silencia sobre o caso e os policiais penais procuram o sindicato para notificar o ocorrido e a falta de informações para os servidores.

Deficit de 69% de servidores da saúde nos presídios
A situação se agrava porque o governo não apenas tolera a superlotação, como desmonta deliberadamente a capacidade de resposta. Em abril de 2026, o Portal da Transparência expõe um déficit de 69% das vagas de saúde vazias nas prisões, apenas 803 de 2.626 preenchidas. Sem profissionais de saúde, doenças contagiosas demoram para ser detectadas e se espalham como rastilho de pólvora. O deficit de 38% de policiais penais inviabiliza também o socorro dos presos a hospitais, já que faltam policiais e viaturas para a escolta. Todo esse sucateamento amplifica o risco de uma tragédia sanitária.

O Sinppenal já encaminhou ofício anterior à Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) sem obter resposta. Agora encaminhará novo ofício cobrando informações imediatas sobre as medidas de profilaxia e segurança que estão sendo adotadas para evitar um surto entre policiais penais, servidores e sentenciados. No documento, reforçamos que as unidades não têm EPI e solicitamos a distribuição de máscaras cirúrgicas e álcool gel 70% em todas as unidades. O sindicato solicitou também a aplicação de medicação preventiva conforme protocolo do Ministério da Saúde para servidores expostos; vacinação meningocócica ACWY para profissionais e presos; barreiras sanitárias rígidas; plano de contingência articulado com a Secretaria da Saúde e quimioprofilaxia imediata para os contaminados.

A ocorrência de doenças contagiosas em presídios superlotados afeta diretamente os servidores. Basta lembrar que, durante a pandemia de Covid-19, 125 policiais penais morreram no estado, uma proporção maior que a de presos mortos. A história já mostrou que quando a negligência toma conta, quem paga são os servidores. O Sinppenal alerta com urgência: é hora de agir antes que um surto epidemiológico se instale.

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