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A Penitenciária de Ribeirão Preto foi palco de uma tentativa de motim nesta segunda-feira (18) quando um dos detentos se recusou a cumprir uma ordem de isolamento. A situação começou no domingo (17), quando, durante a rotina de revistas, os policiais penais flagraram uma visitante portando dezenas de papéis com informações estratégicas do crime organizado. A suspeita era esposa de um dos presos. Imediatamente, a direção determinou o isolamento do detento. Ele, porém, recusou-se a sair da cela e passou a articular uma reação. 

Na manhã de segunda-feira (18), a equipe de segurança foi até a cela para cumprir a transferência. O preso afirmou que sairia pacificamente. Bastou a porta automatizada ser aberta para que todos os ocupantes da cela se lançassem para fora. Começaram a empilhar colchões, jogar objetos nas grades e atear fogo. O objetivo era claro: provocar um motim. 

O enfrentamento foi imediato. Graças à ação do GIR (Grupo de Intervenção Rápida) e da CIR (Célula de Intervenção Rápida) na unidade, a reação foi rápida e coordenada. Em questão de minutos, os policiais controlaram a situação sem que houvesse fuga ou feridos entre os servidores. O motim foi sufocado antes que ganhasse escala.

O episódio, no entanto, escancarou um problema crônico que a categoria denuncia há anos: a superlotação e a falta de efetivo. A Penitenciária de Ribeirão Preto foi projetada para abrigar 973 detentos. Hoje, abriga 1.710 pessoas, uma superlotação de 76%. 

Segundo o último relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de setembro de 2025, naquela data, a unidade contava com 141 policiais penais para custodiar esse contingente. Isso significa uma razão de 1 policial para cada 12 detentos – mais que o dobro do recomendado pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), que aponta o ideal de 1 agente para cada 5 presos. A conta é simples: para atingir o padrão mínimo, seriam necessários 342 policiais. Faltam, portanto, cerca de 142 profissionais para garantir segurança mínima à unidade e aos próprios servidores.

Se considerarmos que esses 141 policiais atuam em quatro turnos, teremos uma situação ainda mais dramática. Na prática, o número de servidores por turno é dividido entre o patrulhamento na muralha, a sub-portaria, a portaria, revisora e no acesso. Dentro da carceragem, para controlar a população carcerária,ficam, com esse efetivo reduzido, no máximo 10 policiais penais. Imagine a situação: 10 policiais penais para 1.710 detentos. Não é à toa que os policiais penais estão cada vez mais doentes, física e mentalmente. 

O Sinppenal, que representa os policiais penais do estado, acompanha de perto a situação. O motim de segunda-feira só não virou tragédia porque a equipe de plantão agiu com profissionalismo e coragem. Mais uma vez, os policiais penais colocaram a vida em risco para conter uma crise que o Estado insiste em não resolver. Superlotação e deficit de pessoal são combustível para agressões, fugas e rebeliões. 

Sem investimento imediato em contratações se valorização da carreira, incidentes como este se repetirão, e a próxima tentativa pode não ter o mesmo desfecho. Enquanto isso, os policiais seguem na linha de frente entre o Estado e o sentenciado, com 76% a mais de presos do que deveriam vigiar.

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