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O sistema prisional de São Paulo vive o momento mais tenso dos últimos sete anos. Com 229.306 presos distribuídos nas 180 unidades do estado e uma superlotação de 46%, a população carcerária se aproxima perigosamente do recorde histórico registrado em 2019, quando atingiu 233.089 detentos. Os números revelam não apenas um problema de espaço, mas uma crise humanitária que afeta tanto os encarcerados quanto os servidores responsáveis por sua custódia. E o cenário pode piorar significativamente, uma vez que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou, na tarde desta quarta-feira, a redução da maioridade penal. 


De acordo com informações do CNJ, o estado de São Paulo possuía, no final de  mais de 2024, segundo dados do Painel de Inspeções no Socioeducativo, 4,2 mil jovens e adolescentes cumprindo medidas socioeducativas, o equivalente a 41% do total nacional. Se a maioridade penal for reduzida para 16 anos,  contingente semelhante seria acomodado nas unidades superlotadas de São Paulo nas prisões que acontecerem após a mudança, aprofundando o colapso do sistema. 


A superlotação, porém, não é o único sintoma da falência do sistema. Ela caminha lado a lado com uma defasagem crônica de policiais penais que torna o ambiente ainda mais instável e perigoso. Em 2026, apenas 22.909 policiais penais estão em atividade nas unidades, o que representa um déficit de 39% do efetivo necessário. Isso significa que cada policial penal precisa lidar com uma média de 10 presos, uma proporção que qualquer especialista em segurança penitenciária classificaria como insustentável.


Para contextualizar a gravidade da situação, basta comparar com os dados de 2019. Naquele ano, havia 30.994 policiais penais em atividade, proporcionando uma relação de um servidor para cada 7,5 detentos. Mesmo essa proporção já era considerada inadequada pelos órgãos reguladores. Hoje, a situação piorou significativamente.


O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) estabeleceu uma política de regulação de vagas no sistema prisional que determina um parâmetro claro: cada policial penal deve cuidar de, no máximo, 5 presos. Essa recomendação também é respaldada pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), que considera esse número essencial para o bom funcionamento das unidades e para garantir condições mínimas de segurança e dignidade.


Aplicando essa determinação à população carcerária atual, o cálculo é simples e assustador: São Paulo precisaria de 45.800 policiais penais para cumprir o que preconiza o CNJ. A diferença entre o necessário e o disponível é de mais de 22 mil servidores. Essa lacuna representa o cotidiano de pressão, sobrecarga e precariedade vivido por quem trabalha nas penitenciárias.


Os policiais penais enfrentam condições de trabalho que extrapolam qualquer limite aceitável. O ambiente é hostil, a sobrecarga é constante e o risco é permanente. Estima-se que 20% dos policiais penais ativos estão afastados por doenças psíquicas, reflexo direto do estresse crônico e da exposição contínua a situações de violência. Até maio deste ano, a Polícia Penal já havia registrado 4 suicídios entre seus servidores, um indicador devastador da saúde mental dessa categoria profissional.


A pressão sobre esses profissionais é descrita com clareza por quem vive essa realidade diariamente. Fabio Jabá, presidente do Sindicato dos Policiais Penais de São Paulo (Sinppenal), explica que trabalhar em uma situação que combina superlotação extrema com falta crônica de profissionais é simplesmente insustentável. “Os servidores estão sob pressão constante, tentando manter a ordem em um ambiente que não oferece as mínimas condições de segurança. Vemos colegas adoecendo, afastados por problemas mentais graves, e perdemos pessoas para o suicídio. Não estamos falando de números abstratos. Estamos falando de vidas que se quebram dentro de penitenciárias que não têm estrutura para funcionar. A falta de pessoal faz com que cada policial penal carregue um peso que nenhum ser humano deveria carregar", afirma. 


Baixas anuais sem reposição

E não há previsão para que a situação seja sequer amenizada. O governo Tarcísio é o primeiro a não contratar policiais penais. De 2025 a 2026, 2.553 servidores deixaram os quadros da SAP sem que haja qualquer tipo de reposição. Segundo levantamento do Sinppenal, esse número está acelerando com o envelhecimento da categoria. 



A precariedade se manifesta na rotina das unidades, na segurança comprometida, nas condições de vida dos detentos e, principalmente, no sofrimento silencioso de quem trabalha ali. Um policial penal responsável por 10 presos quando deveria cuidar de 5 não consegue exercer sua função adequadamente. Não consegue garantir segurança. Não consegue manter a ordem. E, acima de tudo, não consegue preservar sua própria saúde mental. Quando a segurança das penitenciárias fica comprometida, o combate ao crime organizado lá fora também padece. Toda sociedade paga o preço do descaso estatal com o sistema prisional. 


O sistema prisional paulista está quebrado. E enquanto os números crescem, os servidores adoecem e morrem, o poder público segue indiferente a uma crise que deveria ser prioridade nas agendas políticas e administrativas do Estado.

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