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A pandemia de coronavírus (COVI-19) era algo inimaginável para a maioria de nós até o ano passado, mas eis que essa crise sanitária gravíssima atingiu todo o mundo e, lamentavelmente, também se alastrou pelo Brasil. Com este memorial, o objetivo do SIFUSPESP é prestar homenagem aos guerreiros e guerreiras do sistema prisional que perderam a vida devido à COVID-19. 

Aqui nossa perspectiva não é a da tristeza, ainda que a partida desses servidores e servidoras seja profundamente triste. A proposta é homenagear, valorizar o papel de cada um e cada uma dentro e fora do sistema prisional, pois além de trabalhadores, estamos falando de pais, mães, filhos, filhas, amigos e amigas que se foram e deixaram uma herança imaterial de valor inestimável - o próprio legado para os que ficam. 

Aos que quiserem colaborar com a ampliação das histórias, compartilhando relatos sobre os companheiros e companheiras homenageados no memorial, basta enviar mensagem pelo Whatsapp (11) 99339-4320 ou no e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

ABRIL

Aparecido Cabrioti
Policial penal há quase 15 anos na Penitenciária “ASP Adriano Aparecido de Pieri”, em Dracena, Aparecido Cabrioti, de 64 anos, tirou férias em março. Como havia planejado,  viajou para Maceió (AL), passando primeiro por Londrina e depois, do Aeroporto de Congonhas, na cidade de São Paulo, seguiu para a capital alagoana. Era palmeirense, católico, gostava de viajar ao lado da esposa conhecendo o país, dos momentos com a família que construiu. 

Aparecido adorava servir e alegrar as pessoas. Sua especialidade, o churrasco. E fazia como ninguém”, afirma o sobrinho e afilhado Bruno N. dos Santos em relato ao site Inumeráveis. 

Depois de uma semana em Maceió, Cabrioti começou a se sentir mal e a perceber os primeiros sintomas da doença. Um teste realizado no laboratório particular Hermes Pardini, em Belo Horizonte (MG), confirmou a COVID-19 e, posteriormente, foi feita contraprova pelo Instituto Adolfo Lutz

Assim que retornou à Dracena, procurou direto a Santa Casa da cidade, onde ficou internado na Unidade de Terapia Intensiva desde 28 de março. Faleceu às 9h40 do dia 3 de abril, sendo o primeiro policial penal vítima do coronavírus no Estado de São Paulo. O sepultamento foi no Cemitério Municipal São João Batista, em Presidente Prudente. 

Moisés Marcos Braga
Da cidade paranaense de Janiópolis, o policial penal tinha completado 48 anos em março,  trabalhava no Centro de Progressão Penitenciária (CPP) de Franco da Rocha e afirmava amar sua profissão. 

No sistema prisional desde 1991, era casado, gostava de música caipira, sertaneja, fã do Trio Parada Dura, do cantor José Rico e de churrasco. Jogava capoeira e era sensível a situação das crianças, preocupado com desaparecimentos, sempre compartilhando postagens sobre o tema na tentativa de ajudar as famílias. 

A confirmação da COVID-19 foi informada pelos médicos à família em 22 de abril e no dia seguinte, depois de uma mensagem de sua esposa informando sobre o estado de saúde do policial penal, foram centenas os amigos e amigas em oração, na torcida pela recuperação de Braga. 

Internado em Francisco Morato, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Estadual Dr. Carlos da Silva Lacaz, o policial penal acabou não resistindo e faleceu em 25 de abril.  

Entre as muitas mensagens postadas na rede social de Braga, uma prima escreveu: “Aí em cima tem muita gente que vai te receber de braços abertos (...). Você com certeza vai deixar saudades em muitos corações e será lembrado para sempre”. 

Deise Bertoli
Oficial administrativo na Penitenciária de Florínea, foi do Centro Integrado de Movimentações e Informações Carcerárias, tinha 55 anos e morava em Pedrinhas há quase cinco anos. 

Na cidade, junto com a família, foi idealizadora da “Caminhada Solidária”, entre outros eventos em que mobilizou a população para arrecadação de alimentos destinados a um asilo. Gostava de voleibol adaptado para a terceira idade, acompanhava as partidas das jogadoras de Pedrinhas. 

Com dengue, Deise precisou ser internada no Hospital Regional de Assis, onde morreu em 27 de abril. No dia 30 do mesmo mês, o teste confirmou a COVID-19. A solidariedade é uma das marcas de sua história de vida, característica reconhecida e destacada pelos moradores da cidade em mensagens de despedida à servidora. 

“A melhor forma de homenageá-la é fazer o que ela gostava de fazer, é ajudando as pessoas. Vamos seguir esse legado e seguir fazendo isso”, afirma o filho de Deise, Victor Hugo, anunciando que dará início a uma campanha de arrecadação de alimentos destinados às pessoas em situação de vulnerabilidade no município por conta da pandemia. 

MAIO

Samuel dos Santos
No sistema prisional desde 1992, o policial penal era casado, tinha 54 anos e trabalhava na Penitenciária I de Sorocaba, de onde se afastou em 26 de março depois de suspeitas de contágio pelo vírus. 

Foi internado em um hospital do município em 19 de abril. Lá foi confirmado o coronavírus e o policial penal havia se curado. Porém, tinha diabetes, insuficiência renal e problemas no coração, comorbidades que, pioradas com a COVID-19, levaram o servidor a falecer na madrugada de 2 de maio. 

Em mensagem enviada ao SIFUSPESP, os colegas o destacam como “uma excelente pessoa e excelente profissional”, sempre dedicado ao trabalho.

Tânia Magali Oliveira da Silva
Policial penal de 54 anos, era diarista na Penitenciária Wellington Rodrigo Segura, em Presidente Prudente. 

A batalha contra o coronavírus começou em 19 de abril, quando foi internada por 15 dias na UTI da Santa Casa de Presidente Prudente. Ela sentiu os primeiros sintomas no dia 17 e em 22 de abril a COVID-19 foi confirmada pelos médicos. Era hipertensa e diabética, as comorbidades acabaram agravando seu quadro de saúde. 

Morreu na madrugada de 3 de maio, deixando marido e duas filhas. Está sepultada no Cemitério Municipal Campal de Presidente Prudente.

Sempre zelosa e disposta a desempenhar seu trabalho da melhor forma possível, para os colegas do sistema fica na memória a funcionária exemplar dedicada à unidade. 

Marcelo José de Cerqueira
Policial penal do Centro de Detenção Provisória (CDP) I de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo.

Fã de futebol, torcia para o Palmeiras e, vestindo a camisa, acompanhava o time de perto indo às partidas nos estádios com a esposa e o filho. Apreciador de samba, ouvia Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Bezerra da Silva. 

Os primeiros casos de coronavírus na unidade foram denunciados ao SIFUSPESP no final de março e tempos depois Cerqueira acabou se tornando uma das vítimas, falecendo em 7 de maio, a sétima morte entre os servidores do sistema prisional paulista. 

Os colegas expressam seu reconhecimento ao excelente profissional que Cerqueira foi. Em mensagem numa das redes sociais do sindicato, a esposa afirmou: “Meu esposo lutou por 30 anos, honrou cada dia de plantão”. Por um dos muitos amigos do sistema, é ressaltado pelo “companheirismo, amizade, honradez, coragem e um grande esposo e pai de família. Estivemos juntos em vários momentos tensos no presídio e nunca abandonou o enfrentamento”. 

Moacir Batista
Policial penal da Penitenciária de Pracinha e morador de Adamantina, no interior paulista, tinha 58 de idade e muitos anos de trajetória pelo sistema prisional, onde havia trabalhado em outras unidades, como em Parelheiros, na capital. 

O diagnóstico da COVID-19 veio em 28 de abril, quando estava internado num hospital de Adamantina, sendo transferido para uma Unidade de Terapia Intensiva em Marília. 

Lamentavelmente, seu quadro se agravou e Batista morreu em Marília na noite de 12 de maio, no mesmo dia dos Agentes de Segurança Penitenciária (ASPs), hoje policiais penais. 

Em mensagem ao SIFUSPESP, um dos muitos colegas lamenta a morte de Batista, ressaltando o desafio dos policiais penais em meio à pandemia: “são profissionais que estão na linha de frente nesta pandemia sinistra e que têm como abandonar seu posto de trabalho porque o Brasil conta com estes guerreiros na linha de batalha”. 

José Rodrigo Ferreira
Morador de Martinópolis, o policial penal trabalhava na Penitenciária de Pracinha. Era prudentino, solteiro e tinha 39 anos. 

Ele estava se recuperando de dengue, que evoluiu para um quadro hemorrágico e foi infectado pelo coronavírus, confirmado apenas depois do falecimento de Ferreira. O policial penal morreu em 2 de maio, na  Santa Casa de Presidente Prudente, depois de passar mal enquanto fazia uma caminhada. 

Um de seus amigos de infância descrevem Ferreira como uma pessoa “de coração imenso (...) que deixará saudade e grandes lembranças das alegrias e tristezas que tivemos nesse curto tempo em vivermos juntos aqui na terra!”. 

João Almir de Souza
“Professor” era como todos o conheciam, tamanho era seu conhecimento em 32 anos atuando no sistema prisional paulista. 

Com 57 anos, casado e com uma filha, trabalhava na Penitenciária Feminina de Santana, na zona norte da capital, onde era Diretor de Disciplina do Pavilhão 3, e tinha atuado em outras unidades em sua trajetória, entre as quais o Complexo de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. 

Esperava se aposentar para ir pescar depois de mais de três décadas dedicado ao trabalho. Lamentavelmente, o coronavírus tirou esta oportunidade do policial penal. Depois de duas semanas internado num hospital de São Paulo, Souza morreu em 15 de maio. É o décimo servidor penitenciário a perder a vida para a COVID-19 no Estado. 

Deixe o exemplo como excelente profissional e de seu companheirismo. “Uma pessoa íntegra, humilde e que não prejudicou nenhum funcionário que trabalhou sob sua diretoria. Que Deus o tenha bem guardado no seu livro de recordação”, afirma um de seus colegas de trabalho. 

Valdemir Manoel
Da  Penitenciária de Andradina, completaria 57 anos em agosto, era casado e com filhos, chamado de “marido herói” pela esposa ao destacar o papel do policial penal para a segurança da sociedade. 

Morador da cidade de Castilho e corinthiano, tinha mais de 20 anos de sistema prisional. Internado num hospital em Ribeirão Preto, faleceu na noite de 21 de maio. Do legado que deixa, os colegas destacam sua amizade e a honradez com que desempenhava seu trabalho.

“Combateu o bom combate, acabou a carreira, guardou a fé. Desde agora a coroa da justiça lhe está guardada”, destacou uma colega em mensagem à família de Manoel. 

Benedito Antônio Angelino
Carinhosamente conhecido como Maguila, o policial penal era da Penitenciária I de Avaré e fazia parte do Grupo de Intervenção Rápida (GIR) 3. 

Com quase 30 anos de sistema prisional, no início da carreira chegou a trabalhar na Cadeia Pública do Hipódromo, no Brás, zona leste da capital, unidade extinta em 1995. Estava se preparando e na expectativa para a aposentadoria após décadas de dedicação. 

Divorciado, tinha três filhos. Internado por dias em estado grave com o coronavírus, morreu na tarde de 23 de maio. 

Como memória de sua vida, os colegas o ressaltam o jeito brincalhão, “amigo e um grande irmão, de coração enorme que nos deixou” e que “cumpriu com louvor toda missão que lhe foi dada”. 

Emerson Dutra
No sistema prisional desde 2009, o policial penal nascido em Guaratinguetá trabalhava no setor de inclusão da Penitenciária I de Potim e morava em Roseira, no interior paulista. 

Gostava de livros, das estórias de Júlio Verne, de filmes e se dedicava à numismática, sendo colecionador de moedas e cédulas de diferentes países e períodos históricos, participando inclusive de eventos com outros colecionadores. 

Estava afastado do trabalho em tratamento de saúde, quando em 23 de maio sentiu um mal súbito em casa, foi prontamente socorrido, mas não resistiu e faleceu no dia seguinte.  Houve suspeita de infarto seguida da hipótese do coronavírus, que acabou infectando também a esposa e o filho do policial penal. 

Em vídeo emocionado nas redes sociais, a esposa de Dutra fez um desabafo após a confirmação do resultado do próprio teste e do filho: "Mal pude chorar a morte de meu marido e estou aqui, lutando pela minha vida", e alertou. "Levem o vírus a sério! Não é só uma gripezinha! Fiquem em casa, usem máscara e protejam-se!". 

Silvio Faria de Souza
Mais conhecido como Guardão, o policial penal trabalhava desde 2012 no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Suzano. 

Com 47 anos e solteiro, Souza tinha dezenas de cursos de treinamento e manuseio de armamento. Antes do CDP de Suzano, também havia trabalhado no CDP de Caraguatatuba. 

Sentiu os primeiros sintomas da COVID em 24 de maio, foi internado no dia seguinte e acabou falecendo no dia 26. 

Além de um irmão e uma irmã, Guardão e seu trabalho exemplar ficam na memória dos muitos colegas no sistema prisional

JUNHO

Antônio Dantas
Do Centro de Progressão Penitenciária (CPP) de Pacaembu, na região de Adamantina, tinha 60 anos e trabalhava como oficial operacional desde que a unidade foi inaugurada, no final de 2001. 

Para além dos muros do CPP, um pai dedicado à família e religioso, muito engajado na comunidade de sua igreja e fã das músicas de louvor. 

Após período de internação entubado num hospital de Osvaldo Cruz, Dantas não resistiu ao vírus e morreu em 5 de junho, deixando esposa, três filhos e netos. 

No trajeto do hospital até o Cemitério Municipal Pacaembu, o carro funerário passou em frente ao CPP, de onde os colegas do oficial operacional saíram e fizeram uma homenagem com uma salva de palmas na despedida à Dantas. 

Nas dezenas de mensagens de condolências postadas nas redes sociais do sindicato, amigos e familiares destacam Dantas como “pessoa maravilhosa” e que “cumpriu sua missão” na jornada da vida.

Éder César Luiz
Morador de Santo Anastácio, no interior paulista, o policial penal de 38 anos trabalhava na Penitenciária Feminina da Capital. No sistema prisional desde 2011, era casado e com um filho pequeno. 

A paixão pelo trabalho, a disposição, o bom humor e o companheirismo são algumas das características destacadas pelos que conheceram e conviveram com César Luiz. 

O diagnóstico da COVID veio em 3 junho, quando familiares a amigos compartilharam pedidos de oração nas redes e mídias sociais pela recuperação do policial penal, que estava internado em Presidente Prudente. Faleceu na manhã do dia 8 e está sepultado no Cemitério Municipal de Santo Anastácio. 

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