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Há 20 anos, em 12 de maio de 2006, São Paulo se viu refém de uma onda organizada de ataques que paralisou a maior metrópole das Américas.Atentados contra trabalhadores da segurança pública, viaturas, delegacias de polícia e prédios públicos tomaram o Estado de refém e aterrorizaram a cidade. No lado de dentro dos presídios eclodiram rebeliões simultâneas em 74 unidades prisionais espalhadas pelo estado.

Os atos de violência foram a reação do PCC à decisão da SAP de transferir 765 presos considerados lideranças da facção para a PII de Venceslau. O movimento escalou a tal ponto que, no dia 14, a onda de violência já atingia Espírito Santo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.

Ao todo 251 ataques deixaram um saldo de 52 membros de forças de segurança mortos, sendo 16 agentes penitenciários, 25 policiais militares, 8 policiais civis e 3 guardas municipais. Proporcionalmente ao efetivo, nossa categoria foi a mais atingida pela facção.

O saldo da onda de violência foi a morte de 505 civis e 59 agentes públicos. 90 ônibus foram queimados e a maior cidade do país ficou paralisada.

A reação das autoridades foi descoordenada. Apesar de a Polícia Federal avisar o Governo do Estado, sob o comando de Cláudio Lembo, que escutas indicavam o planejamento de rebeliões e de a SAP saber dos riscos, os policiais e os então agentes penitenciários não foram avisados. Todos foram pegos de surpresa com os ataques. Para piorar, Lembo recusou a ajuda do Governo federal para conter a onda de ataques.

No dia 16 de maio, a Folha de S. Paulo publicou uma matéria afirmando que o governo de São Paulo teria feito um "acordo" com o PCC para encerrar o conflito. Após uma reunião entre autoridades e sentenciados em Presidente Venceslau, os ataques cessaram.

O ex- Secretário de Administração Penitenciária Nagashi Furukawa afirmou, em 2008, que acreditava na existência de um acordo, citando a "redução radical na ocupação de celas RDD" após a sua gestão.

Nos dias de hoje, muitos se perguntam como uma organização criminosa surgida em 1993 no anexo da Casa de Detenção de Taubaté conquistou tanto poder. A resposta, embora possua inúmeros fatores complexos, pode ser resumida de forma simples: descaso do Estado.

Durante muitos anos os então agentes prisionais denunciavam o crescimento e estruturação do PCC, o então SIFUSPESP (hoje SINPPENAL) constantemente denunciava o crescimento da organização criminosa, sendo desmentido pelas autoridades.

Após uma série de rebeliões em 2001, o delegado Godofredo Bittencourt, responsável pelas investigações contra o crime organizado, afirmou que "se o PCC tinha uma boca cheia de dentes, agora tem um dentinho ali e outro lá. Não morde mais ninguém".

Só que a realidade era muito diferente. Desde 2001 sob o comando de Marcola, o PCC passou a monopolizar o tráfico de drogas no estado e a agir como uma “governança criminal”.

Pesquisadores afirmam que o monopólio da facção sobre o crime no estado fez cair o número de homicídios de 50 mortes por grupo de 100 mil habitantes para 10 mortes a cada 100 mil em 2013. Tal hipótese se justifica quando verificamos que as disputas entre quadrilhas figuram entre as principais causas de mortes violentas no país.

O risco não acabou

Hoje o PCC se apresenta como um risco à segurança nacional. Operações como a Carbono Oculto demonstram a infiltração da facção no mercado financeiro e fortes ligações com políticos. Algumas linhas de investigação demonstram que o Banco Master de Daniel Vorcaro atuava no esquema de lavagem de dinheiro da organização criminosa.


Ao contrário de seu início, quando pregava o fim da “opressão nos presídios”, hoje a facção mais parece uma multinacional, presente em mais de 23 países e com faturamento medido em bilhões, atuando desde o contrabando de cigarros e tráfico internacional até na fraude de licitações de saúde, transporte e coleta de lixo.  Levantamento do MP de São Paulo revelou que o faturamento da facção aumentou de R$12 milhões para R$2 bilhões em 20 anos. (Leia aqui https://noticias.uol.com.br/colunas/josmar-jozino/2026/05/12/faturamento-do-pcc-aumentou-de-r-2-mi-para-us-2-bi-em-20-anos-diz-mp-sp.htm)

Acusados de lavar dinheiro para a organização frequentam as colunas sociais e doam fortunas para candidatos a cargos executivos em todos os níveis, deixando dúvidas sobre até qual nível o PCC se infiltrou nos círculos de poder do estado e do País.

Ao lermos a opinião de especialistas e políticos sobre a evolução do combate ao crime organizado no país, vemos que a maioria fala em novos tipos penais, formas de combate à lavagem de dinheiro, agências especializadas e acordos internacionais. Mas nenhum deles menciona a necessidade de combater essa organização onde ela surgiu e se multiplicou, o sistema prisional. A falta de estrutura, de profissionais e de condições de trabalho foi o que permitiu a criação e expansão do PCC.

Em 2006, tínhamos 144 mil presos no estado de São Paulo, com um quadro de XXX servidores. Hoje temos 228 mil com um quadro de pouco mais de 23 mil Policiais Penais. Superlotação, falta de estrutura e condições mínimas tornam as unidades verdadeiros barris de pólvora, enquanto isso o Congresso tenta aprovar medidas que permitem a entrada de empresas terceirizadas na gestão e segurança dos presídios. (Leia Aqui) 

Devemos lembrar que boa parte do trabalho de inteligência contra o PCC sai de dentro das unidades prisionais, da observação atenta dos Policiais Penais. Sem uma boa inteligência prisional é impossível falarmos de combate ao crime organizado. Como esperar que um policial exausto, sobrecarregado e mal pago tenha capacidade de observação?

O desmonte da Polícia Penal do Estado de São Paulo e  a insistência do Governo Tarcísio em negar o caos que se tornou o maior sistema prisional da América Latina criam um grave risco à sociedade. O risco não é apenas o do fortalecimento ainda maior da facção, mas de uma nova explosão de caos que novamente venha desestabilizar a sociedade e ceifar vidas.

 

Em 2015, a Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou o Sistema Carcerário Brasileiro elaborou o PL 2.694/2015 que criava os mecanismos legais para a privatização do sistema prisional.

Na época existiam inúmeras iniciativas voltadas à privatização, com destaque para o Complexo Penitenciário Público-Privado (CPPP)  de Ribeirão das Neves, propagandeado por Aécio Neves como exemplo de eficiência do sistema privado.

Ribeirão das Neves foi palco de inúmeros escândalos de superfaturamento e até hoje se mantém como um dos maiores custos por preso do Brasil. A “mágica” deste modelo de privatização estava em um contrato manipulado para criar uma vitrine para a iniciativa privada enquanto o governo sucateava o sistema público.

Experiência fracassada

Passados 13 anos da inauguração de Ribeirão das Neves e 11 anos da CPI, as diversas experiências de privatização pelo país se demonstraram desastrosas, com massacres, proliferação de facções e corrupção generalizada, como em Pedrinhas (Maranhão) e no COMPAJ (Amazonas).
Neste período, países que haviam abraçado o modelo privado descobriram que, além de ser mais caro, não entregava o que prometia. Os Estados Unidos abandonaram o modelo em suas prisões federais em 2016.

Em um memorando, a subsecretária de Justiça dos EUA, Sally Yates, detalha: "Não oferecem o mesmo nível de serviços correcionais, programas e recursos, não apresentam redução significativa de custos e não mantêm o mesmo nível de segurança e proteção."

Projeto não leva em conta o avanço do crime organizado

No momento em que nosso país enfrenta a infiltração do crime organizado na política e no sistema financeiro, com participação em bancos e fintechs acusadas de subornar parlamentares, vemos uma nova tentativa de privatizar o sistema prisional com o avanço do PL 4962/2025 no Senado, que tem como origem o infame PL 2.694/2015.
O parecer do senador Márcio Bittar (PL-AC) ao texto, originário da Câmara, autoriza a formalização de parcerias público-privadas entre os estados e empresas do setor privado.

Incluindo na lista dos serviços permitidos às terceirizadas o apoio à movimentação interna dos presos e ao monitoramento e rastreamento eletrônico.
O que o senador do PL quer é substituir os policiais penais por empresas terceirizadas. No momento em que nossa nação luta para erradicar a interferência do crime organizado na política e nas finanças, em que o PCC penetra na máquina pública por meio de empresas terceirizadas, o senador pretende abrir as portas das unidades prisionais a estas mesmas empresas.

 

Ilegalidade

Embora utilize subterfúgios como a expressão “apoio a movimentação”, o projeto quer substituir o trabalho do policial penal, driblando o texto constitucional que estabelece que cabe às polícias penais “a segurança dos estabelecimentos penais”. A redação esconde que a movimentação, o monitoramento e o rastreamento eletrônico são partes inseparáveis da segurança dos estabelecimentos prisionais. O que o senador do PL não fala também é que a introdução de empresas terceirizadas em uma função de estado, além de ilegal, é extremamene perigosa e abriria a porta do sistema ao crime organizado. É o mesmo que colocar a raposa para cuidar do galinheiro.

Contate os senadores de São Paulo pedindo que votem contra esse absurdo:

Astronauta Marcos Pontes (PL):

  • Instagram: @astropontes
  • Twitter (X): @AstroPontes
  • Facebook: @astronautamarcospontes

Mara Gabrilli (PSD):

  • Instagram: @maragabrilli
  • Twitter (X): @maragabrilli
  • Facebook: @maragabrilli

Alexandre Giordano (MDB):

  • Instagram: @alexgiordano
  • Twitter (X): @alexgiordano
  • Facebook: @alexgiordanosp

 

É com profundo pesar que o Sinppenal comunica o falecimento do policial penal Ricardo Bezerra de Souza, conhecido como "Caído", ocorrido aos 64 anos de idade no dia 11 de maio de 2026. Ricardo trabalhava na Penitenciária 2 de Mirandópolis e estava afastado em razão de complicações de saúde resultantes de tratamento de duas próteses no joelho que sofreram rejeição. Após melhorar desse quadro, desenvolveu uma úlcera gástrica que evoluiu para ruptura pela falta de tratamento adequado, vindo a falecer durante cirurgia de urgência.

A cerimônia de despedida é realizada no Cerimonial Cardassi de Mirandópolis no dia 11 de maio de 2026, e o sepultamento ocorrerá no Cemitério Municipal de Mirandópolis às 16h. O Sinppenal expressa suas mais sinceras condolências aos familiares, amigos e colegas de Ricardo neste momento de imensa dor.