Daniel Vorcaro não era um preso qualquer esperando proteção de última hora. Documentos da Polícia Federal descrevem o banqueiro como um apoiador do Primeiro Comando da Capital. Em mensagem destinada ao "Sintonia Tiradentes", integrantes ligados à facção pediram apoio ao "companheiro Daniel Bueno Vorcaro", descrito como "amigo nosso" e alguém que "apoia a nossa quadrilha e a nossa regional em diversos sentidos". *A informação é do ICL Notícias* , que teve acesso ao material do caso Master após a retirada do sigilo dos autos no gabinete do ministro André Mendonça, do STF.
O episódio que colocou essa relação em evidência ocorreu no CDP de Guarulhos, dias depois de Vorcaro ser transferido para a unidade. A PF identificou uma transferência de R$ 10 mil feita por Manoel Mendes Rodrigues, o Manolo, integrante da "A Turma", milícia privada que trabalhava para o banqueiro, ao advogado André Luís Chagas Bergeralck. Horas antes, Manolo discutia com o advogado como levar o recado a Vorcaro. "Primeiro ele tem que entender que tem uma força por trás que pode ajudar ele", escreveu.
A articulação, segundo os investigadores, envolveu a possível mobilização de integrantes ou pessoas relacionadas ao PCC para prestar apoio ao banqueiro durante a custódia. E não é a primeira vez que o nome da facção aparece nas conversas do entorno de Vorcaro. Em 2024, ao lidar com a recuperação de uma conta invadida no Instagram, o próprio banqueiro orientou seu operador, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, a "alinhar com o PCC".
*Amigo do PCC e financiador de Tarcísio e Bolsonaro*
Em 2022, o banqueiro que apoia o PCC doou R$ 5 milhões para financiar as campanhas de Tarcísio de Freitas e Jair Bolsonaro. O repasse saiu oficialmente de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e maior doador pessoa física das duas campanhas, com R$ 2 milhões para o então candidato ao governo de São Paulo e R$ 3 milhões para o ex-presidente, segundo dados do TSE.
Em sua proposta de delação, o próprio Vorcaro contou à PF que o dinheiro era dele e que as doações eram propina negociada com Gilberto Kassab, em troca da manutenção do contrato de cartão consignado do Banco Master com o governo Tarcísio. (https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/matheus-teixeira/politica/doacao-a-bolsonaro-e-tarcisio-eram-propina-acertada-por-kassab-diz-vorcaro/)
O mesmo Tarcísio que recebeu esse dinheiro é o governador responsável pelo maior sucateamento da Polícia Penal. A defasagem de 40% dos policiais se soma às precárias condições de trabalho em unidades superlotadas e, muitas vezes, sem as mínimas condições de trabalho.
O banqueiro apontado como apoiador do PCC, que financiou a campanha do governador, precisou pagar por proteção da própria facção justamente dentro de um sistema prisional que esse mesmo governador sucateou. Quem paga a conta desse abandono é o policial penal, que arrisca a vida todos os dias em presídios onde facções operam com liberdade suficiente para organizar proteção a um preso de luxo.
O caso Master segue em andamento, agora com o sigilo derrubado. O que os documentos também mostram é que o recado chegou rápido, o dinheiro saiu no dia seguinte e o sistema que deveria ser blindado pelo governo estadual aparece, mais uma vez, como território negociável.
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O Sindicato dos Policiais Penais de São Paulo (Sinppenal) vem a público repudiar a demissão injusta do policial penal Rogério Grossi de Britto, diretor de base da entidade, lotado no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Caraguatatuba, no litoral do estado. A punição foi aplicada pela Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) por meio de Resolução do Secretário, de 10 de setembro de 2026, no âmbito do Processo SPDOC/SAP n.º 1215826/2020.
A demissão é o desfecho de uma perseguição que começou ainda em 2020, quando Grossi, junto do também policial penal Alexandre da Silva e de outros associados, foi punido com 30 dias de suspensão, sem direito a salário. O sindicato recorreu daquela decisão e recorre agora.
O policial foi demitido por causa da acusação infundada de denunciar as precárias condições do sistema prisional durante a pandemia. Ocorre que as denúncias feitas à imprensa não partiram de Grossi, mas do próprio Sinppenal, que levou à imprensa os alertas sobre a falta de EPIs, de material de higiene e de estrutura médica no enfrentamento da pandemia. As reportagens citadas, inclusive, não apontam Grossi como origem do vazamento das denúncias. Ele foi usado como bode expiatório pela SAP para punir a atuação sindical.
Na mesma época, a Revista Piauí denunciou que 77% das unidades inspecionadas pela Defensoria Pública não tinham equipe médica mínima.
Longe de serem "denúncias irreais, genéricas e inverídicas" como sustenta a acusação do governo, os alertas feitos pelo sindicato foram confirmados por dados oficiais.
Levantamento do G1, com base em números da própria SAP, mostrou que:
A incidência de COVID-19 entre agentes penitenciários foi 50% maior do que na população geral de São Paulo (12% contra 8%);
Mais de 4 mil agentes testaram positivo para a doença;
125 servidores penitenciários morreram vítimas da COVID-19;
85% das unidades inspecionadas pela Defensoria faziam racionamento de água e 70% não contavam com equipe de saúde;
Celas para 8 pessoas abrigavam 20; celas para 12 abrigavam até 40 detentos.
Ou seja: tudo o que o sindicato denunciou procedia. As denúncias foram fundamentais para que a entidade tomasse medidas judiciais que forçaram o Estado a cumprir suas obrigações e para que a imprensa mostrasse à sociedade o drama vivido pelos trabalhadores do sistema prisional.
Cerceamento da liberdade sindical
O Sinppenal destaca que o uso de processos administrativos como forma de assédio moral contra servidores que lutam contra abusos e ilegalidades da SAP é uma prática constante. No processo contra Grossi, o processo administrativo disciplinar (PAD) não apresenta provas materiais de qualquer irregularidade, o que caracteriza clara tentativa de intimidação contra o direito constitucional de organização sindical.
Punir quem foi usado como bode expiatório por denúncias verdadeiras de interesse público é uma tentativa de impedir que a sociedade saiba a verdade sobre o que ocorre no sistema prisional paulista.
A demissão de Rogério Grossi não é um ato de disciplina. É uma injustiça diante da qual o
Sinppenal não vai se calar.
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